A série Divergente, a ciência e o seu futuro

Você já leu algum ou todos os livros da trilogia Divergente? Não é seu estilo de leitura? Acredita que essa história de ficção pode ter algo a ver com você e nossa sociedade?

Caso não saiba nada a respeito, veja a sinopse: Beatrice Prior tem 16 anos e está prestes a enfrentar o momento mais importante de sua vida, a Cerimônia de Escolha, quando decidirá à qual das cinco facções em que a sociedade é dividida irá passar o resto de seus dias: Abnegação, Amizade, Audácia, Erudição ou Franqueza. A opção significa continuar com sua família ou abandoná-la para sempre, um dilema que todos os adolescentes têm de enfrentar. Quando o teste de aptidão aponta um resultado inesperado – Divergente –, Beatrice se vê forçada a encarar uma realidade para a qual talvez não esteja preparada.

Mas Tris, o nome que ela assume quando se junta à Audácia, fará de tudo para sobreviver à sua nova e violenta facção. Na Chicago do futuro onde Beatrice nasceu e cresceu, as semelhanças com a metrópole americana dos dias de hoje se resumem à presença de alguns prédios icônicos em estado de abandono ou decadentes. Carros são raros, o Lago Michigan virou um grande pântano, e a maior parte da comida é congelada ou enlatada. Neste cenário desolador, decidiu-se décadas antes da jovem nascer que a culpa da guerra e de outras privações estava na personalidade humana. A população foi separada em facções, numa tentativa de erradicar os atributos responsáveis pela desordem no mundo.

Assim, os que culpavam o egoísmo geraram a Abnegação, e os que acreditavam que a agressividade era a razão dos problemas formaram a Amizade. Aqueles que viam na covardia a origem de todos os males se juntaram à Audácia, enquanto os que repudiavam a ignorância se uniram à Erudição. Por fim, quem pensava na duplicidade como algo a ser exterminado formou a Franqueza. Cada grupo contribuiu com um setor diferente da sociedade: a Abnegação supriu a demanda por líderes altruístas no governo, a Amizade deu conselheiros e zeladores compreensivos, a Audácia protegeu a todos de ameaças externas e internas, a Erudição forneceu pesquisadores e professores inteligentes, e a Franqueza providenciou líderes confiáveis para o Judiciário. Mas, acima de tudo, em cada grupo, encontrou-se um propósito e uma justificativa para a própria existência.

E é com a cabeça cheia de dúvidas que Beatrice descobre, durante seu teste de aptidão, que seus resultados são inconclusivos, pois apresenta inclinações para mais de uma facção, o que faz dela uma divergente. E no mundo da adolescente, ser divergente não é apenas anormal, é perigoso: em uma sociedade onde todos devem pertencer a um grupo, fugir ao padrão desperta o interesse dos líderes e pode representar uma ameaça ao status quo. Orientada a jamais revelar a verdade, Beatrice escolhe ser Audácia, o que choca sua família, mas vai de encontro a suas ansiedades, pois ela não se sente confortável na vida de devoção e supressão da individualidade da Abnegação, da qual fazem parte seus pais e na qual foi educada.

Mas entrar para a Audácia não significa ser Audácia. Todo novato precisa passar pelo processo de iniciação, formado por uma série de testes violentos e potencialmente fatais, dividido em três estágios. O primeiro prioriza a preparação física; o segundo, a emocional; o terceiro, a mental. Para Tris, fracassar não é uma opção, pois a derrota significa ser uma sem facção, gente que vive na pobreza e no desconforto e está afastada da sociedade, longe daquilo que todos os grupos consideram realmente importantes, que é viver em comunidade.

Conforme o processo de iniciação vai chegando ao final, a jovem se inteira das intrigas políticas entre as facções e percebe que a liberdade e a individualidade com as quais que ela tanto sonhava podem ter um preço alto demais, ao custo de seu próprio grupo original. Ela também entende que não é tão egoísta e inconsequente como pensava e que o altruísmo e a devoção ainda fazem parte dela. Afinal, Tris é Divergente, o que poderá salvar ou acabar com sua vida neste emocionante início da trilogia Divergente.

Resolvendo grosseiramente a incompreensão dos não fãs a respeito da história, e falhando com detalhes julgados importantes por fãs, posso revelar duas coisas: a primeira é que eu não li os livros, mas assisti Divergente, gostei e fiz uma reflexão que compartilharei com vocês. A outra revelação é que a indicação do filme é um modo de chamar atenção, fazer uma relação entre Divergente e uma teoria bastante interessante e moderna, chamada de “Inteligências múltiplas” por Howard Gardner.

Não sabe quem é? Veja a breve biografia: Howard Gardner nasceu em Scranton, no estado norteamericano da Pensilvânia, em 1943, numa família de judeus alemães refugiados do nazismo. Ingressou na Universidade Harvard em 1961 para estudar história e direito, mas acabou se aproximando do psicanalista Erik Erikson (1902-1994) e redirecionou a carreira acadêmica para os campos combinados de psicologia e educação. Na pós-graduação, pesquisou o desenvolvimento dos sistemas simbólicos pela inteligência humana sob orientação do célebre educador Jerome Bruner. Nessa época, Gardner integrou-se ao Harvard Project Zero, destinado inicialmente às pesquisas sobre educação artística. Em 1971, tornou-se co-diretor do projeto, cargo que mantém até hoje. Foi lá que desenvolveu as pesquisas sobre as inteligências múltiplas. Elas vieram a público em seu sétimo livro, Frames of Mind, de 1983, que o projetou da noite para o dia nos Estados Unidos. O assunto foi aprofundado em outro campeão de vendas, Inteligências Múltiplas: Teoria na Prática, publicado em 1993. Nos escritos sobre educação que se seguiram, enfatizou a importância de trabalhar a formação ética simultaneamente ao desenvolvimento das inteligências. Hoje leciona neurologia na escola de medicina da Universidade de Boston e é professor de cognição e pedagogia e de psicologia em Harvard. Nos últimos anos, vem pesquisando e escrevendo sobre criadores e líderes exemplares, tema de livros como Mentes Extraordinárias. Em 2005, foi eleito um dos 100 intelectuais mais influentes do mundo pelas revistas Foreign Policy e Prospect.

A teoria das Inteligências Múltiplas provocou grandes questionamentos na forma como a sociedade concebe e atua na educação das pessoas. Pois, de acordo com ela, a forma como julgamos alguém inteligente ou não inteligente, era simplista demais, uma vez que não costumamos contemplar as varias habilidades humanas.

Para superar essa inadequação, Gardner nomeou didaticamente as inteligências que mapeou em suas pesquisas, observe a imagem abaixo e perceba como são autoexplicativas:

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Espero que você visualize que essa teoria amplia nossos conceitos de inteligência, superando a lógico – matemática, possibilitando que outras habilidades humanas sejam consideradas igualmente manifestações de inteligência!

Isso significa, entre outras coisas, que o bailarino que dança como você nunca pôde sequer imaginar é sim, inteligentíssimo!

Nenhum ser humano resume-se a apenas uma característica, nem física, nem emocional, por que seria diferente com nossa inteligência? Nós somos muitos em um só! A teoria das inteligências múltiplas também aponta que possuímos mais de uma inteligência.

Resolvi “forçar a barra” utilizando Divergente para fazer essa comparação, pois nós não vivemos em terra devastada e aqueles que não descobriram ainda o que querem fazer na vida (semelhante aos sem facção) não são necessariamente marginalizados como na história – mas isso merece outro texto! Entretanto, nós também precisamos em determinado momento da vida optar por uma ocupação, ou estudar para nos preparar ou trabalhar. E é sobre esse momento que desejo que você reflita.

Saiba que você, seu vizinho, seus familiares, amigos e todos que você conhece no mundo são divergentes, e ao contrário da ficção, não têm nada de perigosos! As habilidades humanas são maravilhosas, todas contribuem de alguma forma para o equilíbrio do mundo, para que ele progrida! Mas para que elas sejam utilizadas em todo seu potencial é preciso que sejam descobertas, cabe a você em parte, descobrir-se. Lembrando que não há teste 100% efetivo para isso!

Também é responsabilidade das famílias estimular ou no mínimo, proporcionar formas de seus filhos encontrarem seus gostos no mundo. Há também a responsabilidade do Estado (com e maiúsculo, o governo) de oferecer estrutura para que seus cidadãos possam desenvolver-se plenamente. Acho que você já percebeu como pode ser difícil descobrir suas habilidades, desenvolvê-las e utilizá-las para contribuir com o avanço do mundo (através do trabalho).

Sugiro que você passe mais tempo pensando a seu respeito, do que gosta ou não. Que pesquise as atividades que existem, você pode ser bom em algo com que não teve contato ainda! Que experimente aquilo de que acha que gosta, através de aulas de esporte, arte, culinária! Através de estágios! O que for… Que exija que seus direitos sejam assegurados, pois há um motivo para as coisas serem chamadas de básicas, como por exemplo, a educação básica, é o mínimo que você precisa para que consiga “situar-se” nesse nosso lindo planeta Terra!

Sugiro também, que você não sofra e se culpe em quanto não acha o seu lugar ao sol. CALMA!

Assim como na história que usei para “ilustrar” esse texto, é preciso refletir, escolher, compreender, praticar aquilo que se propôs a fazer. Mas o que considero mais difícil quando fazemos a escolha é assumi-la, arcar com as consequências, conviver com elas. Em Divergente não há caminho de volta. Mas nós sempre podemos diversificar.

Artigo da colaboradora Renata Ballego

Referências:
– http://divergentebrasil.com/
– http://revistaescola.abril.com.br/formacao/cientista-inteligencias-multiplas-423312.shtml
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